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  • Jun 30, 2024

Updated: Jul 26, 2025

Carlos Eduardo Carneiro Costa Hermeto | Formado em Filosofia e graduando em Teologia pelo universidade PUC-RIO.





No santo Evangelho encontra-se a consoladora promessa de vitória do triunfo incondicional da Igreja sobre os poderes infernais: “tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno[1] nunca prevalecerão sobre ela.[2]”. As chaves entregues a São Pedro atribuíram ao seu ministério apostólico um onipotente auxílio divino que lhe garante o triunfo sobre todas as adversidades. Dom imerecido que veio acompanhado de uma mudança de nome, de Simão (Σίμον) para (Πέτρος) – pois os nomes dados por Deus nas Escrituras revelam também uma missão. O príncipe dos apóstolos deve ser a pedra sobre a qual toda Igreja deve edificar sua construção. Com certeza tal afirmação reinsere o leitor no final do sermão das bem-aventuranças: “sopraram os ventos e deram contra aquela casa, mas ela não caiu porque estava alicerçada sobre a pedra (Πετραν)[3].” São Pedro é evidentemente a pedra segura na qual todo fiel deve edificar a casa da sua vida espiritual.

 

Dogmaticamente cabe-se recordar que o Apostolo Pedro, tendo sida já recebido pelos apóstolos como a referência do corpo apostólico, como bem mostra o Evangelho Joanino[4] e sendo martirizado como Bispo de Roma, dignificou o trono da cidade eterna com o seu sangue. De tal modo que todos que o sucedem na Cátedra de Roma, recebem também por sucessão a missão pontifícia de guardar as chaves entregues por Cristo. Este mistério de fé e amor da eleição petrina, foi sendo concebida pelos Padres e da Igreja e pelo Magistério ao longo dos séculos até os mais recentes concílios, assim por exemplo ensina o Vaticano I na constituição Pastor Aeternus:

 

“Foi, portanto, este carisma da verdade e da fé indefectível, concedido divinamente a Pedro e a seus sucessores nesta cátedra, a fim de que desempenhassem seu sublime encargo para a salvação de todos, para que assim todo o rebanho de Cristo, afastado por eles do pasto venenoso do erro, fosse nutrido com o pábulo da doutrina celeste, para que assim, removida qualquer ocasião de cisma, se conservasse unida a Igreja toda e, apoiada no seu fundamento, se mantivesse firme contra as portas do ínfero.” (DENZINGER; HÜNERMANN, 2005, n. 3071)

 

Um importante expoente teológico neste sentido é o grande Santo Inácio de Antioquia, ele não só colaborou com uma teologia sobre a espiritualidade do martírio como frequentemente é lembrado em seus dizeres: “Sou trigo de Deus, e serei moído pelos dentes das feras, para que me apresente como trigo puro de Cristo.”[5]. Mas a maior parte de suas cartas exortam a respeito da importância da unidade da Igreja, que melhor se expressa pela unidade com o Bispo: “Não façais nada sem o bispo [...] fugi das divisões sede imitadores de Jesus Cristo, como ele também é do Pai.”.[6] Ou de modo mais radical: “Quem respeita o bispo, é respeitado por Deus; quem faz algo às ocultas do bispo, serve ao diabo.”[7].

 

Santo Inácio ainda nos primórdios da Igreja (séc. I-II), quando o dogma da autoridade petrina não estava estabelecido, concebeu em germe que o coração de cristo pulsava em Roma, e de Roma circulava o sangue da ortodoxia para toda a Igreja. Belos são os elogios a Igreja de Roma em sua famosa saudação na carta ad Romanos, “à Igreja querecebeu a misericórdia, por meio da magnificência do Pai Altíssimo e de Jesus Cristo [...] à Igreja amada e iluminada [...] digna de pureza, que preside ao amor, que porta a lei de Cristo, que porta o nome do Pai.”[8]. Ficando claro que a sede de Pedro possui pela misericórdia e pela eleição de Deus uma primazia dentre todas as demais em presidir ao amor e em portar a jurisdição a lei divina aos homens.

 

Todo esse ensinamento deve repercutir vivamente na vida de fé dos fiéis frutificando um amor concreto e sobrenatural ao Papa, aos bispos e aos presbíteros. Amar incondicionalmente a hierarquia da Igreja é um ato de fé de altíssimo mérito espiritual que está fundamentado nas Escrituras, nos Padres, na vida dos santos, em suma no magistério. Deve-se recordar que o ministério de todos os bispos, presbíteros e em última instância toda autoridade eclesial está sobrenaturalmente vinculada ao coração de Pedro na sede romana.“Na ordem sobrenatural os superiores hierárquicos são: o Sumo Pontífice, cuja autoridade é suprema e imediata sobre a Igreja universal; os bispos, que tem jurisdição em suas respectivas dioceses e, sob sua autoridade, os párocos e vigários”.[10] Assim afirma Pio XII na encíclica Mystici Corporis:

 

Os bispos não só devem ser considerados como membros mais eminentes da Igreja universal, pois que se unem com nexo singularíssimo à cabeça de todo o corpo, e com razão se chamam "os primeiros dos membros do Senhor",mas nas próprias dioceses, como verdadeiros pastores, apascentam e governam em nome de Cristo os rebanhos que lhes foram confiados; ainda que nisto mesmo não sejam plenamente independentes, mas estão sujeitos à autoridade do romano pontífice, de quem receberam imediatamente o poder ordinário de jurisdição que possuem. (DENZINGER; HÜNERMANN, 2005, n. 3804)

 

 É comum aos mestres espirituais atestarem a grandiosidade da virtude da obediência[11], ela está intimamente ligada a humildade e inclusa nos conselhos evangélicos. Santo Tomás de Aquino, que afirma que depois da religião a obediência é a virtude moral mais perfeita, porque nos faz desapegarmos de nós mesmos o que facilita o cumprimento de toda vontade divina.[12] No mesmo sentido, Adolphe Tanquerey, em seu Compêndio de Ascética e mística reforça a importância deste ato sobrenatural de obediência à hierarquia da Igreja. Para ele, as almas avançadas são aquelas submetem interiormente a sua vontade mesmo que esteja contrariada à vontade do superior.[13] E os perfeitos por sua vez em um ato místico de amor: “submetem o juízo pessoal ao do superior, sem sequer examinar as razões por que as manda.”.[14]

 

Portanto quando Santo Inácio invoca por tantas vezes o seu conselho insistente de vida espiritual “nada sem o Bispo” disto se pode retirar uma via positiva de crescimento espiritual: “tudo com o Bispo”. Ou seja, tudo que fizermos em união com o Santo Padre nos garantirá a vitória sobre as portas do inferno. Se por um lado o evangelho atesta que “Todo reino dividido contra si acaba em ruína”[15], a dogmática e a teologia espiritual ainda nos instrui que a Igreja edificada sobre a pedra, em unidade e obediência, permanecerá sempre de pé.


[1] Hades na tradução: BÍBLIA DE JERUSALÉM. Edição revista e ampliada. São Paulo: Paulos, 2013.

[2] Mt 16, 18

[3] Mt 7, 25

[4] Jo 20, 1-10; Jo 21, 15-17

[5] INÁCIO DE ANTIOQUIA, Padres Apostólicos, Inácio aos Romanos, p. 105.

[6] INÁCIO DE ANTIOQUIA, Padres Apostólicos, Inácio aos Romanos, p. 112.

[7] INÁCIO DE ANTIOQUIA, Padres Apostólicos, Inácio aos Esmirnionitas, p. 112.

[8] INÁCIO DE ANTIOQUIA, Padres Apostólicos, Inácio aos Filadelfienses, p. 103.

[10] TANQUEREY, A., Compêndio de Teologia Ascética e Mística, p. 429, pt. 1060.

[11] Definição: “A obediência é uma virtude moral sobrenatural, que nos inclina a submeter nossa vontade à dos superiores legítimos, enquanto representantes de Deus.”

[12] STh II-II, q. 104, a.3

[13] TANQUEREY, A., Compêndio de Teologia Ascética e Mística, p. 429, pt. 1063.

[14] TANQUEREY, A., Compêndio de Teologia Ascética e Mística, p. 429, pt. 1064.

[15] Mt 12, 25

Updated: Nov 17, 2024




Janderson Juvino da Silva

Graduando em Filosofia pelo universidade PUC-RIO.


Muitas pessoas ao redor do mundo já tiveram a oportunidade de visitar uma grande catedral em estilo gótico. Não é incomum ouvir acerca da sensação de arrebatamento provocada pelo contato com tais edificações. Capaz de extrair do observador uma sensação de curiosidade e ao mesmo tempo de espanto, a realidade com a qual o observador se depara no interior de cada uma dessas, que foram os primeiros arranha-céus, o comunica a existência de algo que os seus olhos não são capazes de alcançar. Há uma cadeia de símbolos e substâncias que fazem com que ogivas e rendilhados não transmitam apenas aspectos acidentais e conhecíveis apenas pelos sentidos, mas por eles mesmos, comuniquem conceitos fundamentais da realidade. É verdade que se alegue que esse fulgor não seja comum a todos que adentram uma imponente catedral, mas é verdade ainda que algo similar seja evocado no interior de cada homem que permaneça por alguns instantes ante a linha do horizonte que separa céu e terra ou mesmo deitado em um campo a observar o voo dos pássaros. A questão inicial a ser elencada é o papel inegociável da contemplação no processo do conhecimento.


Aquele que não se propõe a tal labor, ainda que perceba e conheça algo de verdadeiro transmitido pela matéria das coisas, não chegará à essência e, portanto, não se aproximará do chamado de todo homem a conhecer, como apresenta H. D. Gardeil em sua obra introdutória à filosofia de São Tomás de Aquino, onde diz: “Há no homem uma tendência inata ao saber, isto é, a conhecer pelas causas, e este desejo não pode ser satisfeito senão no momento em que se atinge a causa última, aquela após a qual não há nada mais a procurar, e que se basta, portanto, a si mesma.” [1] Não será de se estranhar a necessidade de conhecer algo de imaterial presente nos seres corpóreos, uma vez que ao olhar para a natureza humana se veja a presença de um princípio vital que sustenta a vida do corpo, animando-o, a qual chama-se alma. Com isto, não se deseja apontar a existência de uma alma para cada ser corpóreo, uma vez que há os inanimados, mas de notar a possibilidade de conhecer dimensões imateriais de cada ente segundo à sua natureza e que são necessários para estender o conhecimento acerca da realidade na qual todos estão inseridos.


Esse mesmo fulgor “catedrático”, paisagístico, assombrou também os pré-socráticos que, diante da natureza, pela observação, ultrapassaram pouco a pouco o estágio pré-filosófico do conhecimento, onde passaram da etapa da mera observação à busca pelas causas primeiras, razão de ser da filosofia. Ora pela água; ora pelo ar; ora pelo fogo; seja através de Tales de Mileto; seja com Anaxímenes; seja por Heráclito; o indivíduo humano notou que lhe era possível conhecer para além dos sentidos através dos sentidos, não obstante, Anáxagoras nessa cadeia chega a um princípio imaterial como princípio de todas as coisas. [2]


Em que instante se estagnou o ser humano na busca incansável por saciar-se na visão de si mesmo ao “modo de Narciso”, separando-se da voz que ecoa na realidade?! Outrora, com o sofista Protágoras, diz-se que o homem é a medida de todas as coisas [3], como menciona o Cardeal Zeferino na sua obra da história da filosofia, daí um curto salto foi para sucumbir ao subjetivismo, ao relativismo e ao ceticismo, onde há uma constante tentativa de adaptar as coisas a si por vaidade, por interesses pessoais ou ainda por preguiça [4]. Daí, pode-se questionar: Por onde repousa a figura do conhecido Sócrates? Que valor possui a verdade presente e independente de nós na realidade? Dão crédito mesmo à ideia de que esta não se pode ser conhecida como dizem os céticos? A partir da vida deste, que tornou-se conhecido por seu discípulo Platão, percebeu-se que não poderia apoiar-se apenas no conhecimento alcançado pelos sentidos, mas era necessário uma investigação, de onde ele vai encontrando todos os sujeitos que diziam ter a posse de determinados conhecimentos, seja a justiça, seja a beleza, etc. Tão-logo, assim, por prêmio, pôde encontrar a verdade que mais valia: a que nada sabia; por esta poderia então passar a conhecer, já que longe da presunção, presente nos demais, viu-se ignorante e necessitado de conhecer, o que assume São Tomás como se mencionou no início pelo trecho de Gardeil e como também defende Hugo de São Vitor em seu opúsculo sobre o modo de aprender, onde cita a humildade por primeira entre as condições necessárias para o aprendizado. [5]


De tal maneira, pensando em como tal contexto implica nos dias atuais, revela-se de suma importância a prudência quanto ao fenômeno atual dos “produtores de conteúdo”, estes dizem saber de muitas coisas, mas, muitas vezes, não se detiveram na experiência da investigação do objeto dito em domínio. Muito possivelmente, apenas conhecem os acidentes de determinada realidade. E, assim, enquanto leitores e interlocutores, quando se percebe, conhece-se muitos acidentes de muitos seres, mas pouquíssimas substâncias de poucos seres. Haveria, portanto, realmente o contentamento com a hegemonia da condição pré-filosófica do conhecimento por parte do homem contemporâneo, onde até se conhece algo, mas apenas de modo desorganizado e superficial? Diante dessa questão, tomar a postura tomista de assumir o realismo aristotélico, parece caminho bastante seguro e atraente.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


[1] GARDEIL, Henri-Dominique, Iniciação à filosofia de São Tomás de Aquino: psicologia, metafísica, Paulus, 2013.

[2] MARITAIN, Jacques, Elementos de filosofia I, Introdução Geral à filosofia, Agir, 1989.

[3] GONZÁLEZ, Zeferino, Historia de la Filosofia, 2ª ed., Madrid, 1886, tomo 1, p.178-181

[4] JOLIVET, Régis, Traité de philosophie: logique cosmologie, editor emmanuel vitte, 1961, p.149

[5] São Vitor, Hugo de, Opúsculo sobre o modo de aprender e meditar.

 



Updated: Nov 17, 2024


Willian Oliveira de Sá

Formado em Filosofia e graduando em Teologia pelo universidade PUC-RIO.


A mente de Chesterton é essencialmente filosófica, dado que, se um ser está ligado ao Absoluto, essa é sua relação absoluta. Não foi apenas o poeta nele; mas, em primeiro lugar, o filósofo nele que, quando caminhava pelos campos, viu na margarida o olho de Deus e, ao passear despreocupadamente pela Strand, viu uma escada que descia dos céus para Charing Cross [...] Não existe uma linha de seus livros que não me diga enfaticamente: “Esse homem é um filósofo”. Mas existem poucas linhas que não dizem também, com ênfase semelhante: “Esse filósofo é um poeta”. (MCNABB, 1955 apud PAINE, S. R., Chesterton e o universo, p. 207.)


A constatação supracitada ilustra bem o predicado amistoso da personalidade de Gilbert Keith Chesterton, o que, sem dúvida, é certificável em todas as suas obras, porém não só no que tange a sua espirituosidade singular, mas sobretudo na grande afeição e familiaridade para com a realidade; a captação do ser e a compreensão do quanto de verdadeiro, bom e belo há na ordem trivial das coisas, o que o faz enxergá-las como extraordinárias a partir da perspectiva de redescoberta - paradoxal, é verdade, mas trata-se de Chesterton, o mestre dos paradoxos sadios, os que fazem acordar a mente, como disse ele próprio. Isto pode ser encontrado em três conjunturas, quais sejam, seus longos esforços pelo contato com a verdade, passando pelas profundas influências de Santo Tomás de Aquino, e seus juízos a respeito da denominada filosofia moderna.


Entretanto, o que significa, estritamente, dizer da amizade de Chesterton com a ciência de todas as coisas? Que contribuição deu seu labor intelectual para a filosofia? Com quais subsídios pode-se dizer categoricamente que G. K. Chesterton é um filósofo? Sobre esses questionamentos, comentadores como o especialista no assunto, Padre Scott Randall Paine, o qual levanta uma análise certeira em seu livro “Chesterton e o universo” – que, a propósito, é um completo comentário à citação do Padre Mcnabb feita acima - onde para explicar o problema partirá do argumento da “Primeira saudação do universo”, o qual consiste em dizer que o verdadeiro processo filosófico, o percorrido por Chesterton, se dá inicialmente na constatação do universo, tendo como ponto de partida a abstração dos primeiros princípios metafísicos, o que levará Paine a classificar o problema como o “filosofar in medias res”.


Isto se elucidará através de uma das características comuns entre a poesia, a filosofia e a oração. Faz-se poesia, como nas clássicas gregas, “em meio às coisas” já existentes, com os materiais já presentes na vida, de forma que o poeta não tem outro trabalho a não ser responder ao que recebeu a priori, apenas. O poeta faz poesia com a poesia que lhe é dada antecipadamente. A poesia possui uma existência objetiva própria. Existe no mundo antes mesmo de o homem começar a escrevê-la. O homem responde à poesia que lhe chega quando escreve sua própria poesia.


Com o mesmo raciocínio dizemos da filosofia, quer dizer, o conhecimento científico, de todas as coisas que já se encontram na realidade; o encontro das causas primeiras de tudo o que já existe in re. Complementa a frase do Padre Paine: “O mundo já está aí, e, evidentemente, nosso conhecimento dele já está aí”, por essa razão o filósofo não deve ser lançado “no meio das coisas”. A filosofia, porém, tendo tal começo in medias res, revela certa dependência de colaboração da poesia, pois como se explicitará em capítulo posterior, a razão em algum sentido é “serva da admiração”, e por ser essa a fina flor da poesia é que se esclarece a referida dependência; trata-se de instrumentos que a poesia oferece à filosofia para continuar seu caminho: para a memória, imagens fiéis à realidade com uma experiência enriquecedora do concreto, como diz o Padre Paine, e dirá também: “O prazer da poesia levará ao clímax da admiração que, por sua vez, gera a indagação filosófica”, a qual termina na estupefação da oração. Já aqui vê-se o processo natural do filosofar, a seguir, importa, porém, dizer da experiência de Chesterton a esse respeito.


A partir da analogia feita por ele próprio em seu livro Ortodoxia, entende-se o processo de verdadeiro contato com a sabedoria e inclusive o espírito com o qual ele se preparava durante toda a sua vida para esse encontro com a filosofia, o que é bem evidente desde a sua mais tenra infância, onde afirma ter-lhe sido propiciado por uma babá, não ao modo sistemático, talvez por isso os tendentes ao mero racionalismo o rechaçam como filósofo, mas como ele próprio diz em Ortodoxia: “de forma vaga e pessoal, através de um conjunto de imagens mentais e não de uma série de deduções”. Minha primeira e última filosofia, na qual creio com uma certeza inquebrantável, foi aprendida no berço. Aprendi-a de uma babá; isto é, da sacerdotisa solene - e apontada pelas estrelas - da democracia e da tradição. As coisas em que mais acredito, e ainda mais agora, são o que chamamos de contos de fadas.


Dessa perspectiva, indicar-se-á outra noção da filosofia chestertoniana, que é a relevância do senso comum, não apenas no que diz respeito à faculdade da alma ensinada por Aristóteles, responsável pela integração das sensações captadas pelos sentidos externos - essa lhe será muito desenvolvida também - mas o que significa no modo de conhecer a partir das experiências hodiernas da vida, ao que ele discorrerá relativamente às ideias de democracia e tradição, quando diz daquela: “as coisas comuns a todos os homens são mais importantes que as peculiares a um só homem”, e complementará: “Em suma, esta é a fé democrática: as coisas mais terrivelmente importantes devem ser da alçada do homem comum - o cortejo amoroso, a educação dos jovens, as leis do Estado.”.


Isso demonstra a importância de se valorizar e vivenciar a vida cotidiana, e como ensina Chesterton, encontrar na ordem trivial das coisas os seus maravilhamentos, o quanto de extraordinário contém em cada uma delas. O simples homem bípede, como tal, deveria tocar mais o coração do que qualquer música e ser mais impressionante que qualquer criatura. A morte é mais trágica que a morte por inanição. Ter um nariz é mais cômico do que ter um nariz normando. Este é o primeiro princípio da democracia: as coisas essenciais nos homens são as coisas que têm em comum, e não as coisas particulares.


Com isso, de modo algum a democracia conflitua com a tradição; esta é a perpetuação daquela pelos confiáveis testemunhos comuns da humanidade e não de acontecimentos isolados e arbitrários, como também ensinará em Ortodoxia. É por essa razão que Chesterton fala do que lhe ensinavam pessoas como sua babá, a sacerdotisa da democracia e da tradição, pois, pelo método natural, in medias res, tratava das coisas comuns com o prazer de lhes contemplar, até pela admiração, chegar aos questionamentos filosóficos e, por fim, transcender na teologia.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

 

CHESTERTON, G.K. Ortodoxia. Campinas: CEDET, 1923.

PAINE, S.R. Chesterton e o universo. Brasília: UnB, 2001.


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